O TEMPO, BH, MG

20 de outubro 2004


 
Identidade racial/étnica

FÁTIMA OLIVEIRA

O Brasil é um país mestiço. A mestiçagem resulta da “mistura genética” entre diferentes grupos populacionais catalogados como raciais. A mestiçagem também possui elementos culturais. Afro-descendente é, ao pé da letra, o reconhecimento da descendência africana, mestiça ou não. Considerando o contexto da mestiçagem, ser negro possui vários significados. Em nosso país ser negro é uma escolha de identidade, a da ancestralidade africana. Então ser negro é, essencialmente, um posicionamento político.

Para fins de estudos demográficos, a classificação racial do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é a oficial do Brasil, que adota como critério básico que a coleta do dado se baseie na auto-classificação. Isto é, a pessoa escolhe, num rol de cinco itens (branco, preto, pardo, amarelo e indígena) em qual ela se aloca. Como toda classificação racial é arbitrária, a do IBGE não foge à regra. Portanto, possui limitações. Sabendo-se que raça não é uma categoria biológica, todas as classificações raciais possuem limitações. Todavia a do IBGE é um padrão que coleta dados nacionalmente e sua utilidade está centrada, sobretudo, na unidade da coleta das informações, o que permite um padrão de comparação nacional oficial.

Para a demografia, população negra é o somatório de preto + pardo. Relembrando que preto é cor e negro é raça, e não é nenhum bicho-de-sete-cabeças, mas não há “cor negra”, como falam tanto. Há cor preta. É simplérrimo, mas a maioria das pessoas, com destaque pesquisadores(as), insiste em dizer que não entende! Freud explica. Grosso modo, raça deveria ser um conceito biológico, porém não é; e etnia um conceito cultural, que também não é, pois a delimitação de grupos étnicos parte de uma suposta alocação deles no guarda-chuva dos grupos populacionais raciais!

Então, o uso de tais vocábulos está circunscrito à destinação política que se pretende que possuam.  Estudos da genética molecular, sob o concurso da genômica, são categóricos: a espécie humana é uma só e a diversidade de fenótipos, bem como o fato de que cada genótipo é único, representa a normalidade da natureza. No âmbito do gene não é possível definir quem é geneticamente negro, branco ou amarelo. O genótipo sempre propõe diferentes possibilidades de fenótipos. O que herdamos são genes e não caracteres! O conceito de raça é uma convenção arbitrária, enquadra-se como uma categoria descritiva da antropologia, baseada nas características aparentes das pessoas.

A médica Fátima Oliveira escreve às quartas-feiras

E-mail: fatimaoliveira@ig.com.br