Conheci a Vera no ano passado, empatia imediata! Gente boa, sorriso largo, olhar carinhoso. Acabamos nos aproximando e descobri que ela era muito mais que gente boa, a Vera é (e aqui tomo emprestada uma definição de pessoas de uma amiga) uma pessoa nutritiva, daquelas que quando a gente está junto está sempre aprendendo, ensinando, trocando... nutrindo.

Maravilhosa a concepção que ela tem de beleza, especialmente vindo de alguém com larga experiência no tema: Vera é jornalista, formada pela PUC-SP, é integrante do Conselho Estadual da Condição Feminina de São Paulo. Atuou como Editora Especial de Beleza e Saúde da revista "Nova Cosmopolitan" durante 8 anos. Como jornalista e escritora especializada em beleza, saúde e qualidade de vida, colabora com diversas revistas, como "Vogue", da Carta Editorial; "Raça Brasil", da Editora Símbolo; "Marie Claire", da Editora Globo; "Cláudia" e "Nova Beleza", da Editora Abril. Eleita a melhor editora de beleza de 1997 no Phytoervas Fashion Awards 98.

Foi muito prazeroso entrevistar a Vera, a identificação com o que ela fala é imediata: quem de nós não sofreu alguma vez por não se enquadrar nos padrões impostos pela ditadura da beleza? Quem não se sentiu um perfeito patinho feio na adolescência? Sua entrevista remete ainda a muita reflexão, falar da questão da beleza imposta a todas nós, mulheres, mexe com questões sérias, tais como a dos distúrbios alimentares (anorexia, bulimia) que afetam principalmente mulheres. A história da consultora de beleza que conseguiu ir além do posto demonstra que é possível pensar diferente e fazer a diferença em qualquer área.

 
Entrevista
 
Vera Golik
 
Conte um pouco a sua história até aqui. Porque resolveu trabalhar com mulheres e beleza desde esta perspectiva diferenciada do que está imposto sobre ser bela?

Vera Golik: A história é um pouco longa (acho que sou eu que sou um “pouco” prolixa...), mas vamos lá... Sempre conto que caí de pára-quedas na área de beleza, porque esta área nunca teve a ver comigo. Muito pelo contrário. Minha irmã (11 anos mais velha do que eu) era modelo. Ela começou junto coma Bruna Lombardi e, na época, tinha mais trabalho do que a Bruna. Ou seja, ela estava no auge dos seus 17, 18, 20 anos e eu na feiúra desajeitada dos meus 7, 8, 10 anos...

Lembro que as meninas do colégio que estudava (era um colégio estadual) já tinham um jeitinho feminino de ajeitar o uniforme sem graça (encurtavam a saia cinza, davam voltinhas nas meias, ajustavam a blusa branca), mas eu não era feita para a coisa (saia ia pelo joelho, uma meia para cima outra para baixo). Eu vivia na rua brincando com os moleques. No jardim da infância, as meninas faziam balé e os meninos judô. Adivinha o que eu escolhi? Judô, é claro!

Para piorar, meu irmão (10 anos mais velho do que) vivia brincando comigo e como meu cabelo crescia para cima em vez de para baixo, ele dizia que parecia uma moita ambulante. Ai que vergonha! Eu morria de vergonha de entrar na escola. Chegava sempre atrasada para que os corredores estivessem vazios e eu não corresse o risco de ser observada pelos meninos...

Bom, daí a vida correu, minha irmã foi morar nos EUA e eu resolvi fazer jornalismo. Entrei e fiquei feliz por muitas razões, inclusive pelo meu visual bicho grilo que ali era totalmente adequado. (Parênteses: para pagar a faculdade precisava trabalhar e consegui um estágio na assessoria de imprensa de um banco. O meu departamento ficava na presidência do banco e lá meu visual não combinava com nada e eu era repreendida sempre).

No fim da faculdade fiz o Curso Abril de Jornalismo e fui para a Editora como estagiária. Fiquei livre do banco, mas fui parar na Revista Manequim – justo eu que não sabia nem pregar um botão. Aí, de repente, a Diretora da Revista Nova, Fátima Ali (que meses antes tinha me ouvido dar um palpite numa reunião), foi me procurar. Eu estranhei, porque ela era muito importante e não me conhecia. Foi aí que, pela primeira vez, meu “cabelo moita” serviu para alguma coisa... É que a editora de Beleza da Nova tinha saído e a Fátima lembrou dos meus palpites de recém formada enxerida. Só que, como não tinha idéia do meu nome, ela perguntou por todo prédio se alguém sabia do paradeiro de uma “loirinha cabeluda” e foi assim que me acharam.

Finalmente, cheguei na sala da Fátima Ali tremendo de medo, quando ela me perguntou: “Você gostaria de ser Editora de Beleza de Nova”? Eu fiquei chocada e respondi com outra pergunta: “Mas, eu? Eu que não sei nem passar batom na boa?” E ela disse que isso não era problema porque era uma questão rápida de banho de salão de beleza e de loja e que eu tinha outras características que seriam úteis. Aí eu aceitei.

Como não sabia nada do assunto, saí estudando, pesquisando lendo tudo o que podia porque além das matérias (e eram muitas) eu ainda tinha que fazer um livrinho por mês (de 36 páginas) sobre vários temas ligados ao assunto – pele, cabelo, maquiagem, ginástica, dieta etc. etc. etc. Em um ano, doze livrinhos. Resultado: fiquei conhecendo bem a área e, como minha foto saía na revista todo mês nas páginas da revista sob o título: “Segredos da Editora de Beleza”, logo estava sendo reconhecida como uma grande expert em Beleza e Saúde. Na verdade, fui ficando mesmo, porque passei a freqüentar todos os congressos médicos da área, visitei os laboratórios das maiores indústrias de cosméticos do mundo, no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa e assim a coisa caminhou.

Até aí, tudo bem. Mas como eu passei da que reforça os padrões estereotipados para a que procurava passar uma outra visão de beleza? Bom, depois da sessão de relacionamento amoroso (com consultores como Paulo Gaudêncio e Marina Colasanti) a minha área de beleza e saúde era a que mais recebia cartas das leitoras, centenas de cartas. A gente respondia tudinho, mesmo que fosse com uma resposta padrão. Foi depois de uns três anos que eu estava nessa função que a coisa começou na mudar.

Nessa época eu comecei a participar de uma ONG internacional (a SGI) que trabalha pela paz mundial através da cultura e educação. Trabalhamos baseados na filosofia budista do humanismo e do respeito por nossas características e valores. Ou seja, eu entrei em parafuso. Me perguntava: “O que eu como MULHER, BRASILEIRA e EDITORA DE BELEZA DA NOVA vou poder fazer de concreto par a paz mundial?” Sinceramente eu acreditava que nadinha.

Mas aí eu comecei a dar mais atenção às cartas das leitoras que na verdade estavam ali pedindo para uma estranha (eu, que já tinha virado amiga íntima porque estava na casa delas através da revista todos os meses) uma ajuda não só para melhorar a aparência, mas para salvar a vida delas.

Sim, uma vez recebi uma carta de uma moça que dizia: “Querida Vera, se você não me ajudar a perder 20 quilos e me conseguir um cirurgião plástico para terminar a reforma, meu marido vai me abandonar, eu vou me jogar da janela e a culpa vai ser sua...” E eu ficava com essas cartas na mão pensando: “Puxa, o problema dela vai além da solução estética, a auto-estima dessa moça está pra abaixo do pé”. E o mesmo acontecia com todas que me perguntavam sobre a cor de um batom ou um corte de cabelo. Na verdade elas queriam se sentir melhor, mais confiantes, ter alguma perspectiva na vida.

Aí eu vi que com o meu trabalho eu teria duas formas de contribuir para um mundo melhor (sem salvar o mundo das cáries...): uma era ajudar as mulheres a gostarem mais delas mesmas e valorizarem a beleza que cada ser humano tem e é única, sem seguir os padrões estereotipados das revistas e da mídia em geral. A outra forma, era estimular as empresas a apoiarem projetos que valorizassem as mulheres nos mais diferentes campos. Foi assim que me tornei “madrinha” do projeto Sim, da Avon, que conheci as amigas das ONG's de mulheres, o UNIFEM, e os Conselhos Estaduais e Nacional das Mulheres.

Fale mais desta experiência de trabalhar em grandes revistas femininas, justamente na editoria de beleza?

Vera Golik: Vale mais um comentário. Eu continuo escrevendo para as revistas femininas e sempre tento incluir esta perspectiva de auto-estima, o não-estereotipo e o não-milagre em qualquer que seja o tema que eu desenvolva. Continuo escrevendo para a Nova, escrevo para a Elle (onde fui editora de beleza de 1999 a 2002), para a Vogue (no ano de 1998 ganhei o prêmio Phitoervas Fashion como melhor editora de beleza do país pelo conjunto de matérias publicadas nesta revista), Marie Claire e outras.

Qual a grande dica de beleza que você daria hoje para alguém?

Vera Golik: Conheça-se! Conheça o seu corpo, seja íntima dele, saiba como ele reage a alimentação, a atividade física, aos tratamentos e produtos de beleza. Aí use e faça o que tiver vontade, o que for possível e, principalmente, o que lhe der prazer. Faça tudo isso porque é um grande prazer, um grande barato. Porque é uma prova de amor próprio e não uma tortura para tentar ser alguém ou algo que você não é. Lembre sempre que você é uma pessoa única, que nem se tiver uma irmã gêmea ela será igual a você. Então se valorize e cuide-se! Porque você merece!

Em seu novo livro você ensina 101 maneiras de fazer sua filha gostar do próprio corpo, fazendo uma alusão ao período tragicômico da adolescência. Que história é essa, por onde começam estas 101 maneiras?

Vera Golik: O próximo livro – “101 idéias para sua filha amar o corpo dela” – é uma continuidade do trabalho que já venho fazendo. Ou seja, a idéia principal é para que nós, mulheres adultas, assumamos a responsabilidade de não criar novas vítimas da beleza padronizada. E só poderemos fazer isso se estivermos praticando com a gente, certo? Então, o livro começa desde que a mulher se descobre grávida, lidando com as mudanças do corpo e transmitindo essas emoções e sensações para o bebê que está se desenvolvendo dentro dela. Passa pela relação mãe e filha nas mais diversas idades e, sem sugerir respostas fáceis ou mágicas, as idéias têm o objetivo maior de levar a uma discussão sadia sobre o assunto para que cada uma – mãe e filha – possa achar o seu jeito de ser e se sentir bonita, sempre.

Em seu livro “Corpo de Mulher” você me contou que as modelos que posaram para as fotos eram todas “refutadas” pelo mercado, porque para este mercado estariam acima do peso ou velhas demais, e olhando o livro a gente vê que todas são mulheres maravilhosas. Como funciona esta ditadura da beleza e dos padrões que vão sendo impostos a cada época para as mulheres?

Vera Golik: Os modelos de beleza mudam de época para época. Esses padrões têm a ver com questões culturais e comportamentais. Na época dos espartilhos a mulher quase morria (às vezes morria) para ficar na “forma”. Hoje, morremos para ficar “em forma”. Não mudou muito. A questão é que como seres pensantes e com cada vez mais autonomia, nós mulheres temos o dever de questionar antes de nos sujeitarmos aos padrões, sejam eles quais forem.

Hoje, o que vemos na mídia são dois extremos desses estereótipos: um é o das modelos magérrimas dos desfiles e das matérias de moda (foi feito um estudo que comprova que elas têm cerca 30% a menos do que o peso que uma pessoa da idade e estatura delas deveria ter); o outro é o das “gostosas”, cheias de curvas, prontas para fazer sucesso entre os homens e causar inveja nas mulheres.

Em ambos os casos esses padrões ficam no imaginário das mulheres (e de muitos homens) como a imagem do sucesso, do poder. E afastam as pessoas delas mesmas, que vão ficando cada vez mais infelizes. No caso das modelos muito magras, ficou provado que se elas não são anoréxicas, estão bem perto disso. São doentes e esse é o padrão que nossas garotas querem seguir. As que querem ser “gostosas” em geral fazem sacrifícios incríveis para isso (colocam peito, sugam gordura, malham sem parar). Se não chegam lá (já que o “lá” não tem nada a ver com elas) ou se chegam e não alcançam o sucesso que imaginavam, em ambos os casos o resultado é o mesmo: insatisfação e perda da identidade.

Nossa batalha é para estimular as pessoas a encontrarem novas musas... Afinal, tod@s precisamos de referências. Só que podemos admirar outras “belas” que não as retocadas por maquiadores e pelo computador, como, por exemplo, mulheres que realizaram coisas incríveis, ou mesmo exemplos de batalhadoras e corajosas mães, irmãs, avós e tias que todas nós temos na família.

Em quais os projetos que você está envolvida no momento e quais os seus planos para o futuro?

Vera Golik: No momento estou super envolvida com a finalização do livro. Em outubro próximo estarei em Nova York participando de um encontro de escritores e outros profissionais que trabalham em vários países do mundo pela auto-estima da mulher. Espero voltar de lá mais rica nesse aspecto. Também estou participando de um projeto de uma nova revista de um grande jornal paulista e ainda fazendo parcerias com empresas para apoiarem projetos para as mulheres.

O Futuro? Bom, tenho planos de continuar escrevendo e dando minhas palestras sobre beleza, auto-estima e valorização da mulher, no Brasil e no exterior. Eu acredito que o futuro é HOJE. Tudo o que faço hoje está determinando o que vai acontecer na minha vida. Espero estar dando o melhor de mim, pois quero me aprofundar ainda mais nesse campo e fazer com que meu trabalho seja realmente útil para construir um mundo melhor e mais justo.

Cidadania também é beleza?

Vera Golik: Com certeza. Cidadania é fazer parte, é fazer a SUA parte, é saber que você importa e tudo que você produz com dedicação e talento faz diferença. É olhar-se no espelho e ver ali uma pessoa bonita, que ama a vida. QUER MAIS BELEZA DO QUE ISSO? 

 
Tricotando com Vera Golik

Ser feia(o) é... estar em desequilíbrio.
Quem você repaginaria se pudesse? As pessoas que não gostam delas e tentam parecer com outras, como algumas super bombadas pela ginástica, extremamente plastificadas com Botox e cirurgias plásticas, as que usam as roupas das filhas para competir com elas ou para parecerem mais jovens... xiii sobram exemplos!
Liberdade... é ter responsabilidade e agir pela própria felicidade e pela felicidade de todas as pessoas.
Beleza interior X beleza exterior... a de fora muda, segue o ciclo da vida. A de dentro pode crescer indefinidamente e fica gravada em nossas vidas para as próximas existências. Se a de fora traduzir essa evolução, melhor ainda.
Maior orgulho... ser capaz de colaborar para deixar as pessoas (eu inclusive) mais felizes e confiantes.
Se acordasse Presidenta do Brasil... tentaria continuar tudo de bom que está sendo feito, principalmente elevar a auto-estima do brasileiro. E procuraria dar muito mais espaço para que as pessoas dialogassem e fossem ouvidas. Assim, talvez elas passassem a valorizar e aprendessem a conviver com as diferenças.
A(O) Primeira(o) Ministra(o) seria... você, minha cara Letícia Massula. Sem demagogia, pois você assumiria o cargo com espaço para um rodízio em que várias pessoas tão maravilhosas, competentes e dedicadas também pudessem dar sua contribuição.