Nada de menos
Miriam Leitão
Eu gosto de ser mulher. Gosto de batom, salto alto e
meia fina. Detesto tudo o que destrate a mulher, que a
diminua, mesmo que venha recoberto com aquelas supostas delicadezas. Discordo
dos mitos tratados como fatos como “mulher é sentimento e homem é razão”. Temos
razão e sentimento, atributos dos seres humanos. Fico espantada com a
facilidade com que tantas mulheres abrem mão, ainda hoje, da identidade e do
nome próprio. Tudo avançou nos últimos anos, tudo está longe ainda do que se
possa chamar de aceitável. As mulheres conquistaram muito espaço no mercado de
trabalho nas últimas décadas. É visível e está nas estatísticas. Mesmo assim,
os processos de promoção das empresas estão contaminados pelas velhas barreiras:
rígidas para as mulheres, flexíveis para homens. Mulher só passa se for muito boa, homem mediano passa.
Há quem negue a discriminação mesmo diante de todos
os dados. Ou tente torturar as estatísticas para que elas confessem uma igualdade
inexistente.
Mas, pelo menos uma vez por ano, no início de cada março, são expostos os dados:
há um contingente incontável de mulheres vítimas de violência doméstica, há uma
multidão de meninas submetidas à exploração sexual, há assimetrias intoleráveis
no mercado de trabalho, há a coleção diária de pequenas ofensas. Tudo mostrando
que o problema está longe do fim.
A propaganda brasileira nos ofende. Está implícita,
nos esquetes criados para a venda dos produtos, a informação desrespeitosa. Nem
sempre são tão irritantes quanto aquela velha da Parmalat
contra a qual eu protestei aqui: tratava como sonho da mulher o elogio do
marido pela gaveta de cuecas sempre arrumada. Até hoje, não atino com a relação
entre a grosseria e o leite que ela queria vender.
Certa vez, parei alguns
minutos em frente à televisão e assisti a três ofensas consecutivas. Ourocard: a mulher compra uma roupa nova, mas esconde a bolsa
de compras debaixo da cama e garante para o marido que a roupa é velha. Vick: o marido num quarto de hotel liga para a mulher
dizendo que está passando mal, ela é que informa em que parte da mala está o
remédio que ele precisa tomar. Ariel: a mulher lava a camisa de futebol do
marido e teme a reação dele quando percebe que apagou o autógrafo. Tem uma outra
da Aneel, antiga, em que o homem fica espantado
quando a mulher demonstra ter conhecimento técnico da conta de luz. “Onde você
aprendeu isto?”, pergunta; como fazem os adultos com as crianças.
Que mulher é esta descrita nestes anúncios? É
consumista; mente; é a única que lava roupa, arruma as gavetas de cuecas do marido,
faz suas malas; é ignorante. Sou uma consumidora, há 30 anos dona da minha
conta bancária e dos meus cartões de crédito, que jamais se sentiu representada
na publicidade brasileira.
As jovens acham que feminismo é coisa do passado.
“Um mal necessário”, que teria cometido o erro de querer que as mulheres se comportassem
como homens, como escreveu outro dia uma jornalista, colega do meu filho. As
mulheres estão de volta ao lar, onde, no fundo, sempre quiseram ficar, sustentam
inúmeras reportagens recentes, confundindo casos individuais com tendência.
O feminismo tem sido apresentado de forma caricata
há décadas. O que me espanta é a falta de conhecimento — principalmente das
mulheres jovens — sobre um tema complexo, que atravessa a
história e marca de forma aguda e dolorosa a metade da Humanidade à qual
pertencem. Ser feminista é saber que a mulher foi tratada como inferior ao
longo de toda a História; que ainda hoje restam desigualdades com as quais não
se pode conviver; que as atrocidades como a mutilação de meninas na África, a
imposição de casamento às jovens muçulmanas, a agressão física nos lares são
flagrantes contemporâneos de uma velha pressão ainda não eliminada. É também
saber que, no cotidiano, são múltiplas as teias, as armadilhas, as confusões
que nos empurram para um posto subalterno nas nossas próprias vidas. A construção
da independência é permanente, exige atenção aos detalhes.
O pensamento está contaminado pela defesa da
desigualdade. Para Aristóteles, a mulher se definia pela carência de certas qualidades,
tinha uma deficiência natural. Para São Tomás de Aquino, era um homem
incompleto. Para o Gênesis, foi extraída do homem e o induziu ao pecado. Para o
direito romano, era uma imbecil; para a lei brasileira, até meados do século
XX, uma incapaz. Para Freud, tinha complexo de castração. A maioria das
religiões veta acesso da mulher ao sacerdócio. O Alcorão recomenda que se bata
na mulher desobediente. A História é uma sucessão de fatos em que os homens são
os protagonistas. Para o diretor de Harvard, ainda hoje, elas não têm mente para
a matemática e a ciência. Livrar-se de carga tão antiga e disseminada não se
consegue em poucas décadas de debate. A briga apenas começou.
Pelo jeito com que investia contra meus irmãos mais
velhos na infância, acho que nasci feminista. Na adolescência, ilustrei o impulso
com o pensamento ainda não superado de “O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir.
Com ela, aprendi que a mulher tem sido tratada como “o outro” e que jamais se
deve aceitar esse papel secundário. O recado que tenho para as jovens é que
essa atitude não tem a ver com negação do prazer. É, antes, a forma de conquistá-lo.
Essa atitude é como dizer, como resumiu lindamente Marina Lima, no “Lado quente
do ser”: “Eu não quero, amor, nada de menos.”