paz, justiça e dignidade

Caderno de debates sobre violência e discriminação

CENAFOCO e Instituto São Paulo Contra a Violência

Letícia Massula[1]

-          Módulo III- A Violência na (da) casa –

 

A CULTURA DO TERROR/4 – Eduardo Galeano

 

A extorsão,

o insulto,

a ameaça,

o cascudo,

a bofetada,

a surra,

o açoite,

o quarto escuro,

a ducha gelada,

o jejum obrigatório,

a comida obrigatória,

a proibição de sair,

a proibição de se dizer o que se pensa,

a proibição de se fazer o que se sente,

e a humilhação pública

são alguns dos métodos de penitência e tortura tradicionais da família. Para castigo à desobediência e exemplo de liberdade, a tradição familiar perpetua uma cultura do terror que humilha a mulher, ensina os filhos a mentir e contagia tudo com a peste do medo.

- Os direitos humanos deveriam começar em casa – comenta comigo, no Chile, Andrés Dominguez.

 

 O que é?

 

Embora muitas vezes não percebamos, a violência doméstica é, em geral, o primeiro tipo de violência que temos contato em nossas vidas, uma vez que acontece em casa, ou ainda, no espaço simbólico representado pela casa, como por exemplo, o namorado que agride a mulher na porta do emprego.

Outra característica da violência doméstica está nas relações entre os sujeitos (agressor e vítima). A violência doméstica acontece entre pessoas de estreita convivência unidas por laços consangüíneos ou de afinidade. Difere, portanto, de outros tipos de violência que são produzidos na comunidade, por qualquer pessoa.

 Pressupõe a violência doméstica a existência de relações de poder e desigualdade entre vítima(s) e agressor(es). De acordo com o grau deste poder podemos estabelecer, segundo a socióloga Heleieth Saffioti, uma "ordem das bicadas", ou seja, o mais forte, que detém maior poder, bica os demais, que por sua vez também bicam os mais fracos, e assim sucessivamente. Esta lógica das bicadas foi chamada por Heleieth de "lógica do galinheiro": em um galinheiro composto por um galo e dez galinhas funcionaria da seguinte forma: O galo bicaria todas as galinhas; uma das galinhas, a número 1, é bicada pelo galo mas desfruta do direito de bicar todas as outras nove; a número dois é bicada pelo galo e pela número 1, podendo bicar as outras
oito, e assim sucessivamente até a galinha número dez que é bicada por todos e não bica ninguém.

Se pensarmos em um núcleo familiar podemos identificar algumas categorias de poder que se sobrepõem em detrimento de outros e, portanto, também perceber, no terreno doméstico, uma "ordem das bicadas": homem X mulher, adulto X crianças, jovens X idosos, e outros. Em diversas famílias, deteria o poder das bicadas um homem adulto, em segundo lugar viria uma mulher adulta, seguida por crianças e idosos (não necessariamente nesta ordem).

Esta estrutura de poder nem sempre é estática, podendo se transformar ao longo do tempo e agregar outras categoria de poder, como a produtividade econômica e os conflitos entre filhos naturais e filhos adotivos. Apesar dessa dinâmica, o poder e a desigualdade são elementos que sempre estão presentes nessas famílias, norteando e hierarquizando suas relações - o que deixa alguns membros do grupo em situação de vulnerabilidade.

A Constituição Federal prevê especial proteção à família e mecanismos que coibam a violência doméstica, no que é seguida por praticamente todas as Constituições Estaduais que reproduzem o disposto na CF:

 

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.

 

§ 8.º O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações.

 

onde acontece? PÚBLICO X PRIVADO

 

A violência doméstica não se circunscreve somente ao âmbito do domicílio, muitas vezes transpõe o espaço privado e alcança o espaço público, o que a diferencia, portanto, não é o espaço onde ocorre, mas suas razões, fundadas em relações de desigualdade e de poder entre pessoas ligadas por vínculos consanguíneos, de afinidade ou de amizade.

Não é necessário, portanto, que aconteça dentro de casa para se caracterizar como violência doméstica, mas sim que seja fruto de relações domésticas, mesmo que aconteça na rua.

Esta especificidade da violência doméstica majora seu potencial ofensivo, não podemos tratar da mesma maneira um delito praticado por um  estranho e o mesmo delito praticado por alguém de estreita convivência, como é o caso de maridos e companheiros contra suas esposas, companheiras. O delito praticado por estranho em poucos casos voltará a acontecer pois, muitas vezes, agressor e vítima sequer voltam a se encontrar. Já o delito praticado por pessoa próxima tende a acontecer novamente e pode acabar em delitos de maior gravidade, como é o caso do homicídio de mulheres inúmeras vezes espancadas anteriormente.

Importante também ressaltar as implicações no espaço público da violência doméstica, praticada "no espaço privado". Se pensarmos na violência doméstica como fruto de relações que retro alimentam a violência e que vêm de uma cultura trazida até nós, podemos vislumbrar reflexos desta cultura também no espaço público.

A análise dos símbolos que representam esta cultura - adultocêntrica, masculina, viril - nos leva a crer que muito da agressividade que observamos no espaço público, tais como as brigas de bar, representativas da virilidade masculina, iniciam-se no âmbito privado. Os meninos são incentivados desde pequenos, em casa, a demonstrar sua virilidade, em um segundo momento a demonstram na rua.

Os técnicos do CRAVI - Centro de Referência e Apoio à Vítimas - programa da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo que atende a familiares de vítimas de violência fatal - homicídios e latrocínios – utilizam-se de um instrumento chamando genograma ao atender estas famílias, onde colocam os membros da família, suas relações de parentesco e as diversas violência sofridas e praticadas através da gerações. Colocam ainda neste genograma o envolvimento dos membros da família com álcool, drogas e com a criminalidade.

O que se observou ao longo dos três anos de funcionamento do CRAVI e da utilização dos genogramas foi que, entre as famílias vitimadas um número considerável apresentava violência doméstica. Este é um dado alarmante, ou seja, pessoas provenientes de famílias violentas estão mais suscetíveis a uma morte violenta que pessoas que não apresentam este histórico familiar.

Observa-se, no exemplo do CRAVI uma clara ligação entre a violência praticada no âmbito privado e a praticada no âmbito público assim como em uma geração anterior se reproduzindo na próxima. Justifica-se, portanto a adoção de políticas públicas preventivas da violência doméstica em qualquer plano de ação que se proponha a erradicar a violência urbana.

 

COMO É PRATICADA?

 

A violência doméstica pode ser psicológica, física ou sexual.

Na violência psicológica a vítima tem  sua auto-estima atingida por agressões verbais constantes: ameaças, insultos, comparações, humilhações e ironia. Esta forma de violência é mais sútil, mas não menos daninha. Fragiliza a capacidade de reação da vítima à situação de violência.

Na violência física o corpo da vítima é agredido por socos, beliscões, mordidas, chutes. É queimado, cortado, perfurado, podem ser utilizadas armas brancas (facas, canivetes, estiletes) e armas de fogo.

Quando perpetrada a violência sexual a vítima é obrigada a manter relações sexuais ou a praticar atos que não deseja. A vergonha ou o medo reduzem ao silêncio vítimas, agressores e familiares.

 

CICLO DA VIOLÊNCIA DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

 

As características abaixo são identificadas com maior frequência nos casos de violência contra a mulher e eventualmente, também são encontradas em outras situações de violência doméstica. Se pensarmos na violência contra as  mulheres como sendo uma violência paradigmática podemos passar a utilizá-la na compreensão do fenômeno da violência como um todo.

FASE DA TENSÃO: é caracterizada pelo acúmulo de tensões e se expressa em insultos verbais e atritos. A vítima minimiza estes atos, muitas vezes assume a culpa. O agressor acha que tem o direitos de reclamar e hostilizar. Reforçado pela passividade da vítima, sabe que se a golpear ela não o denunciará.

FASE DA AGRESSÃO: caracteriza-se pela descarga das tensões, sem controle. O agressor golpeia a vítima, ele usa a violência para controlar, submeter, reprimir, exigir obediência. Depois apresenta mil desculpas para justificar sua conduta.

FASE DA RECONCILIAÇÃO: é um período de calma e relativa tranquilidade. O agressor pede perdão, promete mudar e afirma que a situação não voltará a se repetir. A vítima acaba se convencendo.

            Os próximos incidentes serão ainda mais violentos e se repetirão com maior frequência e intensidade. O ciclo termina, muitas vezes, em assassinato.

 

Porque é tão difícil dizer não à violência doméstica?

 

As vítimas que chegam até a polícia ou a outros espaços de denúncias (conselhos tutelares, Ministério Público, etc...)apresentam muitas vezes uma postura ambígua: querem que a violência pare, mas não eu o familiar agressor seja punido. Existem vários motivos para isto:

·         As vítimas da violência doméstica têm muita dificuldade em denunciar a violência sofrida devido à própria relação de intimidade que possuem com o agressor.

·         As relações de poder hierarquicamente construídas também se constituem em um óbice para a denúncia, uma vez que acabam por legitimar e naturalizar a violência doméstica. É natural, portanto, que os pais castiguem seus filhos, que o marido bata na mulher, que a família tenha pouca paciência e negligencie os idosos...

·         Receio que o agressor seja prejudicado socialmente.

·         Dependência ou interdependência econômica.

·         Medo de que a violência se transforme em algo maior.

·         Vergonha.

·         Culpa, por sentir-se responsável pela violência.

 

Recapitulando...

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Características

·         Perpetrada por pessoas ligadas por laços consanguíneos ou de afinidade;

·         Contínua, não é fenomeno isolado;

·         Conspiração do silêncio

Causas

Relações de poder e desigualdade.

Fatores de vulnerabilidade

·         Idade;

·         Gênero;

·         Capacidade econômica;

Espaço

·         Público;

·         Privado;

Formas

 

·         Psicológica;

·         Física;

·         Sexual;

 

TEXTO PARA DISCUSSÃO

*Identifique no texto as características, formas, espaço, causas e fatores de vulnerabilidade que especificam a violência doméstica.

 

FOLHA DE SÃO PAULO – COTIDIANO - São Paulo, segunda-feira, 14 de maio de 2001

Menina terá de fazer plástica

Da reportagem local

 

A menina F. tinha cinco anos quando foi espancada pelo padrasto, em 1993. Segundo relatos de sua tia, autora na denúncia no Crami (Centro Regional de Atenção aos Maus Tratos na Infância do ABCD), F. apanhou durante 40 minutos e ficou com diversos hematomas e fraturas pelo corpo.

A tia descobriu o que havia ocorrido com a menina em uma visita à família, três dias após o espancamento. Segundo ela, F. estava em um guarda-roupa e, desde a agressão, não tinha recebido nenhum tipo de socorro médico.

As investigações do Crami identificaram o motivo da violência: F. fazia xixi na cama. A tia contou que era comum o padrasto bater na menina por motivos banais.

Após levar a menina a um pronto-socorro, a tia de F. deu queixa da agressão e foi pedida a prisão preventiva de seu padrasto. Em depoimento, o padrasto negou que tivesse batido muito forte na menina e afirmou que os hematomas surgiram porque ela tinha problemas no sangue.

O padrasto de F. ficou preso em uma delegacia por 33 dias e hoje responde a um processo por tentativa de homicídio. A pedido do Judiciário, F. foi afastada da família e passou a morar com a tia e a receber assistência psicológica do Crami. O padrasto e a mãe da menina também fizeram terapia até 1996.

Após o tratamento, a menina voltou a conviver com a família. Hoje, aos 13, cursando a 7ª série do ensino fundamental, F. encontrou no hipismo uma forma de superar o trauma. Ela ainda tem marcas da agressão e precisará de cirurgia plástica para corrigi-las.

 
 
MITOS E VERDADES

 

A violência doméstica é rodeada por uma série de mitos que acabam por encobri-la e dificultar sua erradicação:

 

MITO

VERDADE

A família é o local mais seguro que existe. O perigo mora na rua...

A maioria (70%) dos atos de violência contra a mulher, no Brasil, acontece em casa[2]. 66% dos assassinatos de mulheres brasileiras são cometidos por companheiros ou ex-companheiros[3]. De acordo com o CRAMI (Centro Regional de Atenção aos Maus Tratos na Infância do ABCD – SP) a violência contra crianças e adolescentes se dá, na maioria dos casos, dentro de casa. O que vale dizer: Lar o local mais perigoso para as mulheres e crianças.

Crianças costumam fantasiar sobre abusos sexuais que nunca aconteceram...

 

As crianças, em especial, na primeira infância, não costumam fantasiar sobre abusos sexuais, embora haja uma tendência por parte dos adultos de creditarem tais denúncias por parte das crianças à imaginação fértil destas. É preciso escutar com atenção tais denúncias e investigá-las, uma vez que a criança, por sua própria condição não têm meios de se proteger de abusos desta natureza.

Desde que o mundo é mundo os homens batem e as mulheres apanham, é natural...

A violência contra a mulher não é natural. Ela existe porque, em nossa sociedade, os homens ainda se consideram superiores às mulheres, e por isso acham que têm direito de corrigi-las e maltrata-las

Violência Doméstica é coisa de pobre, de país subdesenvolvido...

A violência doméstica ocorre em todas as classes sociais – rica, média, pobre. E é um problema mundial. Nos países da Europa, a violência familiar e conjugal afeta anualmente cerca de 4 milhões de mulheres[4].

Os agressores são todos uns bêbados, uns drogados...

Pessoas que não bebem podem ser violentas em casa. O alcoolismo e as drogas podem até desencadear a violência, mas a causa principal é a subordinação que mulheres crianças e idosos sofrem em nossa sociedade e a hierarquia social que dá o direito a uma pessoa de controlar e mandar nas outras, consideradas inferiores, dependentes ou mais fracas.

Com esta idade ele não possui mais capacidade para lidar com seu dinheiro e com certeza prefere morar com a família...

 

Grande parte dos casos de violência contra idosos acontecem por motivos financeiros e a falta de capacidade para cuidar da própria vida é em geral a desculpa apresentada para que os filhos passem a administrar a renda dos pais idosos. Deixar a casa onde vivem e seu ambiente social constitui-se em grande violência para o idoso, que em geral acaba se deprimindo com a mudança para a casa de familiares.

A criança precisa de limites, e uma boa palmada é fundamental para estabelecer estes limites...

Impor limites não significa infligir castigos físicos à crianças e adolescentes, os limites são conseguidos através de diálogo e afetividade. Utilizar-se de castigos físicos demonstra antes de mais nada falta de competência e argumentação dos adultos no trato das crianças, o diálogo pode ser considerado à primeira vista o caminho mais difícil, mas com certeza é o mais eficaz quando falamos de limites.

 

 

PROPOSTA DE ATIVIDADE: Pescando Mitos

 

Qual a Proposta da Atividade?

 

Fazer uma reflexão em torno dos mitos e verdades que cercam a violência doméstica.

Duração

Aproximadamente uma hora

 

Materiais necessários

·         Cartões em forma de peixes onde o(a) facilitador(a) escreverá um mito ou uma verdade contratante com cada mito, formando ao final um conjunto de peixes-mito e outro de peixes- verdade. Cada peixe possuirá um gancho que permita ao mesmo ser pescado.

·         Varas de pesca com linha e anzol.

·         Um recipiente com areia onde se coloque os peixes submersos deixando apenas o gancho aparente.

Que esperamos ao final da atividade?

·         Identificar as diferenças entre os mitos e as verdades.

·         Relacionar os mitos com nossa vida cotidiana.

·         Fazer uma reflexão de como os mitos que cercam a violência Doméstica ajudam a perpetuar este padrão específico de violência.

 

Passos a seguir

·         O(A) facilitador(a) convidará os participantes da dinâmica a pescar mitos e verdades sobre a violência doméstica. Explicando que faremos uma reflexão sobre como e porque aceitamos os mitos que legitimam esta forma de violência.

·         Será pedido aos participantes que façam fila para inicio da pesca.

·         Será pedido aos participantes que entendem que pescaram mitos se dirijam ao lado direito da sala e aos que pescaram verdades que se dirijam ao lado esquerdo da sala {não será dito pelo (a) facilitador(a) quais são os mitos e quais são as verdades, caberá a cada participante decidir se o seu peixe é um mito ou uma verdade}.O(A) facilitador(a) indicará qualquer um dos participantes para que leia a um mito e ainda que o participante que possua a verdade sobre o mito lido que levante a mão e passe a lê-la. Será feita uma reflexão acerca dos seguintes aspectos:

ü      Em que medida e porque aceitamos aquele mito construído pela sociedade para legitimar a violência doméstica?

ü      Onde aprendemos aquele mito?

ü       Porque repetimos e cremos naquele mito?

ü       Como podemos fazer para não perpetuar este mito em nossa vida cotidiana?

 

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

 

 

Nenhuma sociedade trata de maneira igual seus homens e suas mulheres. A violência contra a mulher é um fenômeno que atinge mulheres de todo o mundo, não diferenciando classe social, raça, credo, idade... enfim, é o que podemos chamar de fenômeno perversamente democrático.

Entendemos este fenômeno como algo construído e não natural. É fruto de uma ideologia machista e patriarcal presente em todas as culturas, e que relega à mulher o papel de cidadão de segunda categoria.

A diferenciação entre mulheres e homens começa a ser construída na infância. Quando nascem, meninos e meninas são diferenciados pelas cores das roupas, meninas usam cor-de-rosa para identificá-las, meninos usam tons de azul; mais tarde a essa diferenciação é feita pelos brinquedos; os meninos brincam de bola, carrinhos ou arma; as meninas de boneca ou “casinha”.

Esses brinquedos se estendem às profissões, as ditas “profissões femininas” atribuem as mulheres a característica de “cuidadoras” e o papel de coadjuvantes, da mesma forma que quando crianças “cuidavam” da casinha e das bonecas na idade adulta são enfermeiras, secretárias, professoras, assistentes sociais, ou seja continuam exercendo estes “cuidados” e o papel de bastidores, na esfera profissional.

Os meninos são educados para o mundo, para os papéis de protagonismo e as ditas “profissões masculinas” demonstram estas características: engenheiros, médicos, executivos, etc.

Dentro de casa estes papéis também são diferenciados desde sempre, as meninas ajudam a mãe na tarefas do lar os meninos aprendem a dirigir com o pai. A mulher é a responsável pela educação dos filhos e o cuidado com o lar, o pai trabalha fora para sustentar a família. Quando trabalham fora de casa as mulheres são ainda submetidas à dupla jornada, pois apesar de contribuir com as despesas da casa permanece sua responsabilidade para com as coisas da casa.

Importante ainda ressaltar que estes papéis e características na maior parte das vezes são impostos, nem todos os meninos gostam de brincar de carrinhos e usar azul bem como, nem todos os homens se sentem confortáveis nas demonstrações de virilidade e as mulheres no papel de fragilidade. Faz parte muitas vezes da cultura familiar impor e obrigar seus membros a exercerem e perpetuarem estes papéis, assim de geração para geração homens e mulheres continuam uma história muitas vezes em desacordo com sua própria essência. É a cara da repressão familiar. 

Tais características socialmente impostas e construídas nos levam aos conceitos de gênero, estereótipo e sexismo:

 

GÊNERO: Gênero é definido como o sexo socialmente construído. Trata-se de um conjunto de práticas, símbolos, representações, normas e valores sociais que as sociedades elaboram, continuamente, a partir da diferenças sexuais, anátomo-fisiológicas.

 

Ao nascer, somos machos ou fêmeas, isto é, nascemos com aparelhos biológicos sexuais diferentes. Contudo, a sociedade através de seus poderosos mecanismos de socialização, e o Estado, através das leis, vão formando homens e mulheres com comportamentos masculinos e femininos bem definidos.

ESTEREÓTIPO: É um conceito muito próximo do preconceito e pode ser definido como “uma tendência à padronização, com a eliminação das qualidades individuais e das diferenças, com a ausência total do espírito crítico nas opiniões sustentadas” (Shestakov). Segundo Lise Dunningan: “O estereótipo é um modelo rígido e anônimo, partir do qual são reproduzidos, de maneira automática, imagens ou comportamentos”.

SEXISMO: São inúmeros os pontos de contato entre racismo e sexismo. Enquanto o racismo designa imagens, atitudes, comportamentos e estereótipos discriminatórios em relação a uma etnia, o sexismo se aplica às diversas formas de discriminação baseada no sexo. “O sexismo é uma tendência que favorece um sexo em detrimento do outro. Por exemplo, os estereótipos ligados ao sexo favorecem o sexo masculino”. (Dunningan)

 

Segundo Andrée Michel: “Agindo segundo estereótipos sexistas, o espírito humano funciona de maneira binária, atribuindo às mulheres qualidades e fraquezas que são negadas aos homens, ao mesmo tempo em que estes se vêem cumulados de qualidades e defeitos que são negados às mulheres. Inútil acrescentar que, nesta distribuição de estereótipos sexistas entre ambos os sexos, a balança é desigual: os homens recebem muito mais valores positivos (coragem, inteligência, auto-afirmação, competência profissional, gosto pelo perigo e pela aventura, espírito de iniciativa e eficiência). Já as mulheres são representadas com seres desprovidos destas qualidades, ditas “viris”, surgindo como pessoas dotadas de qualidades consideradas “femininas” e supostamente ausentes nos homens.

            A adoção destes estereótipos de gênero cria um permissivo para a adoção da violência baseada no gênero, ou seja a violência que tem como causa os papéis masculinos e femininos historicamente construídos e que cria permissivos para que as mulheres sejam violentadas e para que os homens sejam violentos.

            Perpetuar estes estereótipos pode significar, portanto, expor todas as mulheres à violência de gênero, vale dizer, pode significar expor nossas mães, irmãs e filhas à violência.

            Cabe a cada um de nós o empenho na desconstrução destes papéis impostos e esta é uma tarefa filosófica, devemos todos exercer nossa porção filósofo! Explico: o papel do filósofo é, principalmente o de questionar, de não aceitar conceitos pré concebidos, ou seja, não aceitar pré-conceitos; a própria etimologia da palavra filosofia (philos-sophia) nos leva a esta caracterísica, pois significa procura amorosa da verdade.

Pergunto: por que devemos aceitar o pacote pronto que passam para nós de geração para geração? Por que não podemos nós mesmos buscar a verdade? Por que a cada vez que entramos no supermercado temos que comprar sempre as mesmas marcas, os mesmos produtos? Por que não acrescentar chocolate na antiga receita familiar de bolo de baunilha?

Devemos começar a questionar estes papéis pré-concebidos relegados a homens e mulheres e adotar uma postura crítica diante deles. Nosso papel é, portanto, o de filosofar. Por exemplo, cor-de–rosa para meninas, azul para meninos; que característica relacionada a cor azul demonstra ser ela masculina e o rosa feminino? Qual a lógica desta diferenciação? Quem a criou? E se tivesse criado o inverso? Em que medida os meninos deixariam de ser meninos usando rosa e as meninas deixariam de ser meninas usando azul? E assim por diante!

 

Vamos filosofar então?

Assim como no exemplo acima usando o rosa e o azul, vamos pegar outros pré-conceitos com relação à mulher e trabalhar cada um deles, questionando-os e criticando-os.

Divida o grupo em sub-grupos e peça para que cada um faça um debate semelhante ao do exemplo e que depois apresente os questionamentos e a conclusão sobre o pré-conceito utilizado.

Algumas sugestões: homens racionais X mulheres emocionais; sexo forte X sexo frágil; profissões masculinas X profissões femininas, etc...

 

Números que fazem pensar...

Pesquisa da Fundação Perseu Abramo divulgada no ano de 2002 aponta para os seguintes números com relação à violência doméstica:

·         Cerca de uma em cada cinco brasileiras (19%) declara espontaneamente ter sofrido algum tipo de violência por parte de algum homem: 16% relatam casos de violência física, 2% citam alguma violência psíquica e 1% lembra do assédio sexual.

·         Quando estimuladas pela citação de diferentes formas de agressão, o índice de violência sexista ultrapassa o dobro, alcançando a marca de 43%. Um terço das mulheres (33%) admite já ter sido vítima, em algum momento de sua vida, de alguma forma de violência física (24% de ameaças com armas ao cerceamento do direito de ir e vir, de 22% de agressões propriamente ditas e 13% de estupro conjugal ou abuso); 27% sofreram violências psíquicas e 11% afirmam já ter sofrido assédio sexual. Um pouco mais da metade das mulheres brasileiras declara nunca ter sofrido qualquer tipo de violência por parte de algum homem (57%).

·         Dentre as formas de violência mais comuns destacam-se a agressão física mais branda, sob a forma de tapas e empurrões, sofrida por 20% das mulheres; a violência psíquica de xingamentos, com ofensa à conduta moral da mulher, vivida por 18%, e a ameaça através de coisas quebradas, roupas rasgadas, objetos atirados e outras formas indiretas de agressão, vivida por 15%.

·         12% declaram ter sofrido a ameaça de espancamento a si próprias e aos filhos e também 12% já vivenciou a violência psíquica do desrespeito e desqualificação constantes ao seu trabalho, dentro ou fora de casa.

·         Espancamento com cortes, marcas ou fraturas já ocorreu a 11% das mulheres, mesma taxa de ocorrência de relações sexuais forçadas (em sua maioria, o estupro conjugal, inexistente na legislação penal brasileira), de assédios sexuais (10% dos quais envolvendo abuso de poder), e críticas sistemáticas à atuação como mãe (18%, considerando-se apenas as mulheres que têm ou tiveram filhos).

·         9% das mulheres já ficaram trancadas em casa, impedidas de sair ou trabalhar; 8% já foram ameaçadas por armas de fogo e 6% sofreram abuso, forçadas a práticas sexuais que não lhes agradavam.

A projeção da taxa de espancamento (11%) para o universo investigado (61,5 milhões) indica que pelo menos 6,8 milhões, dentre as brasileiras vivas, já foram espancadas ao menos uma vez. Considerando-se que entre as que admitiram ter sido espancadas, 31% declararam que a última vez em que isso ocorreu foi no período dos 12 meses anteriores, projeta-se cerca de, no mínimo, 2,1 milhões de mulheres espancadas por ano no país (ou em 2001, pois não se sabe se estariam aumentando ou diminuindo), 175 mil/mês, 5,8 mil/dia, 243/hora ou 4/minuto – uma a cada 15 segundos.

 

REIS, RAINHAS, FADAS, BRUXAS, CAVALEIROS E OUTROS BICHOS...

 

Era uma vez, um jovem rei de nome Arthur... Um dia, durante uma caçada o jovem Arthur acaba se distraindo e entrando nos limites do reino vizinho, ocasião em que é preso e levado pela guarda ante a presença do monarca daquele reino.

-          A punição para invasores desautorizados de meu reino é a morte – diz o monarca.

Porém, ante o desespero e a jovialidade de Arthur  o monarca faz a seguinte proposta, deixo-o livre caso encontre, no prazo de uma semana, a resposta para a seguinte questão:

-          O que as mulheres mais querem?

Difícil questão aquela. Voltando ao seu reino o jovem Rei Arthur a todos questionou, os sábios, a Rainha, os médicos e engenheiros e não havia ninguém que soubesse a resposta. Foi então, que disseram a ele que apenas uma pessoa saberia a resposta de tal pergunta, uma bruxa que vivia em uma pequena cabana à beira do penhasco, mas que cobraria um grande preço por tal resposta.

Embora evitasse tal solução os dias se passaram, o prazo começava a se esgotar e Arthur não viu outra saída senão consultar a temida bruxa. Ao entrar na cabana deparou-se com uma criatura horrenda, mal cheirosa, que ao saber da questão soltou uma gargalhada e disse a Arthur que a resposta era muito simples mas que o preço era bastante alto, como recompensa a bruxa queria nada menos que desposar Sir Gavin, o mais nobre dos cavaleiros do reino de Arthur e ainda um de seus melhores amigos. Imediatamente Arthur recusou-se a pagar tal preço e resignou-se quanto ao seu triste fim.

Gavin, porém, ao saber da exigência da bruxa prontamente ofereceu-se a casar com a mesma alegando ser pequeno tal preço diante da vida de um amigo.

Feito o acerto e diante da proposta de casamento de Gavin a bruxa deu a seguinte resposta para questão:

-          O que as mulheres mais querem é ser donas de sua própria vida!

Todos concordaram que ela havia dito uma grande verdade e assim foi quando Arthur levou a resposta ao monarca vizinho, este deixou-o livre e celebrou um acordo de amizade entre os dois reinos.

Chegou então o dia das bodas entre Gavin e a bruxa e que bodas tristes foram aquelas... A bruxa usou de seus piores hábitos, arrotou, derrubou comida e bebida, soltou gargalhadas estridentes e deixou a todos constrangidos. Gavin durante todo o tempo a tratou com a maior delicadeza e educação.

Recolheram-se então ao quarto nupcial para concretizarem o casamento. Eis que a horrenda bruxa transforma-se em uma linda jovem, a mais bela de todas as criaturas e então faz a Gavin seguinte pergunta:

-          Como presente de núpcias lhe darei possibilidade de escolher: serei jovem e bonita metade do tempo, na outra metade voltarei a ser a velha bruxa. Quando você prefere que eu seja bela, durante o dia, na presença de todos, ou durante a noite, na intimidade de nosso quarto?

Que escolha!!! Gavin pôs-se a pensar, ter uma mulher bonita para mostrar a todos e uma bruxa para dormir ao meu lado ou deixar que todos pensem que me casei com uma bruxa e guardar apenas para mim a bela mulher? Que fazer?

 

-          E VOCÊ? QUAL SERIA A SUA ESCOLHA? PENSE BEM!!! SEJA SINCERO!!! 

 

Gavin respondeu que não faria tal escolha, uma vez que apenas a ela caberia decidir sobre sua própria vida.

 

E então a bruxa respondeu que uma vez que ele havia respeitado sua autonomia e a tratado com dignidade seria bonita durante todos os dias e todas as noites...

 

 

VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES

 

 

É uma violência interpessoal e intersubjetiva que permeia todas as classes sociais, e possui as seguintes características:

1.      é um abuso do poder disciplinador e coercitivo dos pais ou responsáveis;

2.      é um processo que pode se prolongar por vários meses e até anos;

3.      é um processo de completa objetalização da vítima, reduzindo-a à condição de objeto de tratamento abusivo;

4.      é uma forma de violação dos direitos essenciais da criança e do adolescente enquanto pessoas e, portanto, uma negação de valores humanos fundamentais como a vida, a liberdade, a segurança;

5.