Projeto Promotoras Legais Populares
 
Letícia Massula

O Projeto Promotoras Legais Populares, desenvolvido em São José dos Campos através de uma parceria entre o SOS Mulher, o Instituto Brasileiro de Advocacia Pública e a União de Mulheres de São Paulo, com apoio da Ordem dos Advogados do Brasil, pode ser considerado uma experiência exitosa no tocante ao acesso das mulheres à justiça.

Este projeto iniciou-se em maio de 1992, quando a União de Mulheres de São Paulo e a Thêmis Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero participaram de um seminário sobre os direitos da mulher promovido pelo CLADEM - Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos da Mulher.

Foi nessa oportunidade que ouviram falar pela primeira vez dos cursos de “capacitação legal” de mulheres que já vinham se desenvolvendo há pelo menos uma década em alguns países da América Latina e se propunham a promover a estas o conhecimento das leis e o debate sobre os mecanismos jurídicos, através de um currículo que abordava desde a teoria da aprendizagem até conceitos como direitos humanos, direito constitucional, de família, trabalhista e penal.

O maior desafio encontrado foi a busca de uma síntese entre a educação popular, o conceito de relações de gênero e o formalismo do direito e da lei. Por este motivo foi desenvolvida com habilidade uma metodologia capaz de integrar prática e teoria sob uma perspectiva crítica do direito tradicional e do funcionamento burocratizado das instituições.

Trabalhou-se, ainda, a formação dos educadores, primeiramente, num momento de capacitação que continua durante todo o processo, dialeticamente. Isto porque acredita-se que o conhecimento se dá numa contínua troca de “saberes”, onde educador e educando exercem papéis igualmente importantes. Esta concepção incorpora os ensinamentos pedagógicos de Paulo Freire e o projeto se realiza sob a ótica da educação problematizadora, onde o educador já não é o que apenas educa, mas o que, enquanto educa é educado, em diálogo com o educando que ao ser educado também educa. Assim, ambos se tornam sujeitos do processo em que crescem juntos e em que os “argumentos de autoridade” já não valem.

Os êxitos do Projeto são vários. Além do fortalecimento de lideranças, cabe destaque a quantidade de pessoas atingidas com a multiplicação do conhecimento, ressaltando-se, portanto, o papel da educação na transformação da sociedade.

Como resultados concretos, cumpre destacar a criação de Núcleos de Promotoras Legais Populares em São Paulo e São José dos Campos; e ainda, de projetos similares que vêm sendo desenvolvidos em vários locais, entre eles, o Curso de Agentes Multiplicadores da Cidadania realizado em municípios paulistas pela Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo.

A atuação das Promotoras Legais Populares não se restringe ao âmbito local. As duas primeiras denúncias internacionais de violação de direitos das mulheres encaminhadas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos pelo CLADEM Brasil e a União de Mulheres de São Paulo, com base na Convenção de Belém do Pará - os casos de Delvita Prates e de Márcia Leopoldi, barbaramente assassinadas sem que houvesse qualquer responsabilização, no âmbito brasileiro, dos autores de brutal violência - foram amplamente discutidos pelas alunas, que as acompanham até o momento.

Como proposta de acesso à justiça o Projeto Promotoras Legais Populares vai de encontro dos pontos chave obstaculizantes aeste acesso e figura entre as soluções viáveis para à problemática. A democratização de noções básicas de direito fomenta o reconhecimento, pelas mulheres, dos direitos de que são titulares. A consciência desta titulariedade e dos meios de efetivá-la minimiza a descrença no judiciário, supre distancias institucionais e cria condiçoes para reivindicação de meios de supressão também das distâncias físicas. O projeto torna-se, portanto, porta de acesso das mulheres aos espaços de conhecimento e reconhecimento de direitos, transformando-as em portadoras e multilplicadoras do saber. Inicia-se aí, a construção de um nova paradigma.

E mais, traz para a pauta de discussão a questão dos direitos humanos, que passam a integrar o cotidiano sob o enfoque de gênero. A importância deste enfoque fica clara quando observamos que através da história a prática destes direitos mostrou-se deficiente no reconhecimento das violações em que ser mulher é fator de risco. Discutir os direitos humanos das mulheres é uma forma de oferecer uma oportunidade à sociedade como um todo de entender que a exclusão e violência de gênero representam violação dos direitos humanos de toda a humanidade.

Experiências que trabalham com a educação em direitos humanos como o Projeto Promotoras Legais Populares bem como, processos de sensibilização e de capacitação de operadores do Direito são exitosas uma vez que despertam o desenvolvimento do senso crítico e possibilitam o agir consciente capaz de desconstruir para construir. São o primeiro passo para que possamos fazer essa longa travessia de uma cultura de violência para uma cultura de direitos humanos, despertando a solidariedade.