26/10/2004
- 03h10
Fernanda
Fernandes
free-lance
para a Folha de S.Paulo
Francisca
Pereira de Melo, a Chiquinha, 22, nasceu em São Luís (MA) e é empregada
doméstica em São José dos Campos (91 km a nordeste de São Paulo). Quando tinha
18 anos, sua patroa falou de um curso chamado Promotoras Legais Populares, sobre
direitos da mulher. "Fiquei interessada porque era um curso para mulheres, e a
gente não vê muito disso por aí", diz.
Frâncio
de Holanda/Folha imagem

Alunas
do Curso de Promotoras Legais Populares de São José dos
Campos
Após
participar de encontros semanais durante um ano, Chiquinha aprendeu assuntos que
nem sabia que existia. "Descobri que as mulheres têm direito a
licença-maternidade, por exemplo." Com o novo conhecimento, ela passou a ajudar
outras pessoas, como a sua cunhada, quando esta se separou do marido,
orientando-a sobre os órgãos que deveria procurar e os direitos que
possuía.
Chiquinha
é uma entre as mais de mil mulheres que já passaram pelo projeto, uma das
iniciativas não-governamentais brasileiras que pretendem difundir o conhecimento
do direito pela educação popular. Trata-se de programas fornecem informações,
divulgam campanhas de conscientização e até propõem ações judiciais. Há também
grupos que atuam internacionalmente pela efetivação de direitos em território
nacional. O que todas têm em comum é o ideal de ensinar às pessoas que elas têm
direitos e, se não os conhecem, é muito difícil lutar por
eles.
O curso
de promotoras legais populares gira em torno dos problemas enfrentados pelas
alunas no dia-a-dia, como questões sobre saúde da mulher, violência doméstica e
direitos trabalhistas, que são abordadas de maneira multidisciplinar, com aulas
ministradas por médicos, sociólogos, psicólogos, assistentes sociais, advogados
e juízes.
"Algumas
mulheres usam o conhecimento adquirido no trabalho que já realizavam, outras
passam a atuar em suas comunidades", diz Alcione Massula, uma das coordenadoras
do curso em São José dos Campos, onde ocorre há sete anos. Ela diz que as alunas
que passam a atuar em suas comunidades ajudam outras mulheres a procurar os
órgãos específicos para os problemas que possuem.
O CDHEP
(Centro de Direitos Humanos e Educação Popular), em São Paulo, desenvolve um
projeto de que homens e mulheres podem participar. Chamado "Escola de
Lideranças", o curso busca formar pessoas com uma visão crítica da realidade na
periferia. Ailton Alves da Silva, 40, ex-marceneiro e hoje assessor parlamentar
do deputado estadual Simão Pedro (PT), conheceu o trabalho do CDHEP há dez
anos.
Silva
conta que, em 1980, mudou-se da Vila Mariana para o Parque Rondon, no Capão
Redondo (zona sul). O contato com uma realidade tão diferente o motivou a
procurar a associação de moradores para tentar ajudar as pessoas. Foi nesse
período que ele se interessou pelas atividades que a ONG fazia com comunidades
do bairro, dando orientação jurídica e formando pessoas para lidar com as
dificuldades do local.
"Tivemos
muitas conquistas no bairro onde eu moro. A regularização do loteamento no
Parque Rondon, que era clandestino, é um dos exemplos. Cada morador tem hoje um
lote desmembrado", diz Silva. No início dos anos 80, ele e outras 179 pessoas
compraram lotes em um terreno que era irregular. Apesar de cada uma ter seu
terreno, para a prefeitura a área era uma única gleba.
A
garantia do acesso à Justiça também está presente em outra iniciativa difusora
de direitos da população. "Conhecer para reivindicar" é a idéia da campanha "O
Brasil Tem Fome de Direitos", desenvolvida pela Fase (Federação de Órgãos para
Assistência Social e Educacional), que atua em várias regiões do país, como a
Amazônia e o sertão baiano, com projetos de economia solidária e desenvolvimento
sustentável.
Sandra
Mayrink Veiga, coordenadora da Fase, conta que a campanha consiste em exigir que
sejam cumpridos direitos constitucionais, como educação, saúde, trabalho,
moradia, lazer e segurança. Por meio da formação de uma rede de parcerias entre
entidades, movimentos sociais e até personalidades famosas, a campanha divulga
panfletos e vídeos e promove debates em escolas, rádios e TVs locais. Desde o
lançamento, em junho, a campanha foi adotada por 465 cidades e 1.237
instituições.
"O
trabalho das fortalece a democracia. Não dá para deixar a coisa pública sob a
responsabilidade exclusiva do Estado", diz Virgínia Feix, da Themis, organização
que gere o curso de promotoras legais populares em Porto Alegre. Esse é o caso
do Instituto Pro Bono, que tem na advocacia com responsabilidade social o ponto
de partida de suas atividades. A advocacia "pro bono" tem origem nos EUA e é a
atividade realizada de maneira voluntária, para pessoas que não podem pagar por
esse tipo de serviço. Coordenador do Instituto Pro Bono, Marcos Fuchs afirma que
a entidade conta com o trabalho de 150 advogados e já atendeu cerca de cem
organizações, como a Amar (Associação de Mães e Amigos da Criança e Adolescente
em Risco). "Não tínhamos dinheiro para arcar com essa despesa", diz Conceição
Paganele, presidente da Amar.
Como a
prática da advocacia gratuita é proibida no Brasil, o Instituto Pro Bono teve
problemas com a OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil) em 2001, ano de sua
fundação. A autorização veio em 2002, mas restringe-se a São Paulo e ao
atendimento de pessoas jurídicas. No Estado, o atendimento a pessoas físicas é
feito por organizações governamentais ou, em convênio com elas, por instituições
de ensino, como a USP, por meio do Departamento Jurídico 11 de
Agosto.
Quando
o Estado deixa de cumprir direitos previstos na Constituição, a alternativa é
buscar o auxílio nas cortes internacionais, fazendo a chamada advocacia
internacional dos direitos humanos. A ONG Justiça Global, que publica relatórios
sobre violações de direitos humanos nas mais diversas áreas, desenvolve esse
trabalho. Quando se esgotam os meios de proteção no Brasil ou quando há uma
demora injustificada na ação do Poder Judiciário, a entidade envia denúncias à
ONU (Organização das Nações Unidas) e à OEA (Organização dos Estados
Americanos). A entidade já enviou denúncias sobre violência rural contra de
trabalhadores sem-terra, sobre a situação das comunidades quilombolas e sobre o
direito de mães adotivas de obter licença-maternidade.
Andressa Caldas, diretora jurídica da Justiça Global,
afirma que muitas vezes o trabalho de defesa dos direitos humanos é arriscado.
"Cada novo relatório provoca uma reação adversa", diz. Ou seja, é longo o
caminho pela difusão da Justiça _falta direito para quem luta por eles.
Saiba
mais
CDHEP
tel.
0/xx/11/5511-9762
Centro
Dandara de Promotoras Legais Populares
http://www.centrodandara.org.br/
Centro de Justiça
Global
http://www.global.org.br/
tel.
0/xx/11/3266-9072
Departamento
Jurídico 11 de Agosto
http://www.djonzedeagosto.org.br/
tel.
0/xx/11/3107-1932
Fase
http://www.fase.org.br/
tel.
0/xx/21/2286-1441
Instituto
Pro Bono
http://www.probono.org.br/
tel.
0/xx/11/3889-9070
Themis
http://www.themis.org.br/
tel.
0/xx/51/3212-0104