| Nasci e cresci
sem nada saber sobre
como se criou a linguagem e a organização do Estado.
Aprendi a ler e a escrever e aprendi história.
Mas esqueceram-se de me ensinar lógica:
nunca soube o que é premissa maior ou menor;
muito menos se há diferença entre senso comum
e bom senso.
Nunca me ensinaram que tenho que respeitar os seres
humanos ou não que, de uma maneira ou de outra,
sejam diferentes de mim.
Hoje sou um adulto,
mas não compreendo o mundo em que vivo.
Sou um ingênuo e, no entanto, creio estar bem preparado.
Freqüentei a melhor Universidade e,
não percebi que sou um ser autônomo e livre
que posso escrever a minha própria história.
Se eu não sei que
faço parte de um povo;
Se eu não sei que as leis são feitas por mim,
através da voz do político que elegi para ser meu representante
na Câmara dos Vereadores, na Assembléia Legislativa,
na Câmara dos Deputados e no Senado Federal;
Se eu não sei que a democracia representativa funciona assim e
nem sequer sei o que é democracia,
como poderei distinguir tirania e democracia?
Ah, Sérgio Porto! Como bem percebeste o teu povo!
“O samba do criolo doido” é o retrato do Brasil.
Se nunca me ensinaram o
que é uma Constituição,
como poderei saber para que serve ?
Se nada disso sei, como posso considerar-me cidadão?
Se não sei dos meus direitos e deveres,
como posso acusar os pobres de ignorantes?
Analfabeto é burro?
Ou analfabeto é um ser humano inteligente que apenas não
aprendeu a ler e a escrever?
Um sanatório geral é o que somos, como já bem disse
o poeta da Mangueira.
E sobre a loucura, o que
sei?
Louco é burro?
Ou seria apenas um ser humano inteligente,
que perdeu o controle sobre seus sentimentos e emoções?
Então emoções e sentimentos são importantes?
Mas aprendi na escola que só a razão deve ser levada a sério!
É isso mesmo, ou Descartes errou e, portanto, a mente integra o
corpo?
Se os meus sentidos dão-me informações erradas,
chegarei à conclusões racionais equivocadas?
Então ensinaram-me errado?
Ah! Sinto que devemos estudar nossa história a partir do “Big
Bang”,
senão, iremos continuar a eleger mentirosos,
que farão as leis que bem quiserem,
que rasgarão a Constituição e farão outra
como bem lhes convier e
nós seremos obrigados a obedecê-las,
como nos impõem as elementares regras do Direito,
sem que possamos, nem ao menos,
alegar que não as conhecemos.
Percebo, então, que
continuamos a ser o povo indígena
que trocava ouro por espelhinho,
só que hoje, perigosamente,
conduzimos automóveis velozes pelas ruas e estradas
e usamos armas de fogo.
Somos indígenas falando
uma língua que nos foi imposta e da qual pouco entendemos.
Somos indígenas que pensamos ter sido civilizados.
Somos indígenas deslumbrados com o ornamento dos poderosos bem
vestidos,
que comem em mesa farta usando utensílios brilhantes e, sobretudo,
falam tão bonito, com sorriso branco (têm todos os dentes)
que parecem alienígenas.
E, no entanto, os poderosos são indígenas e também
são seres humanos iguais a nós.
Nós é que não percebemos que eles mandam e desmandam,
porque assim o permitimos.
Este poema foi feito em
homenagem a Darcy Ribeiro, Adoniran Barbosa, Sérgio Porto, Chico
Buarque e Pasquale Cipro Neto.
|