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"Essa short cut cabocla esta há tempos cristalizada na memória
coletiva de minha família, e me foi contada pela minha avó
materna.
Corria o ano de 1929 quando ela se casou, no interior de São Paulo,
com o homem que viria a ser meu avô. Casou-se contra a vontade dos
pais, que queriam para a filha alguém com posses compatíveis
as da família, e não um homem calado, pobre e solitário,
que vivia num casebre ladeado por uns míseros metros quadrados
de terra. Minha avó, porém, que era quase uma criança
a época, fez valer a força de sua personalidade, e foi,
sem levar absolutamente nada da família, viver na pobreza com o
homem que amava.
No primeiro ano de casamento levaram uma vida quase miserável.
Dormiam apertados em uma cama de solteiro, cozinhavam nas únicas
duas panelas que tinham, e trabalhavam arduamente no campo, esperando
a recompensa futura da boa colheita. Os frutos da terra cultivada vieram
no inicio do ano seguinte, quando conseguiram dinheiro suficiente para
comprar mais um pedaço de terra e uma charrete para passeios dominicais,
a qual veio acompanhada de um magnífico cavalo. O animal, bonito
e robusto, com pelos brilhantes e escuros a cobrir-lhe os músculos
bem definidos, tornou-se logo um elemento fundamental de suas vidas. Era
a união da estética a funcionalidade. Ele servia tanto para
as lidas de tração quanto para as de carga: de segunda a
sábado trabalhava no campo; no domingo, levava meus avós
para passear, ocasião em que a charrete lhe parecia uma pluma em
comparação com o peso descomunal dos ferros do arado.
Numa manhã, quando um sol particularmente árido iluminava
aquela terra iulta, o jovem casal, sem imaginar que aquele dia seria especial,
saiu para trabalhar no campo. Minha avó, a frente do animal, controlava
a direção; enquanto meu avô ia atrás, equilibrando
o arado e observando os sulcos que nasciam sob seus pés. Assim
trabalharam até o meio-dia, árdua e harmoniosamente. Foi
quando o cavalo, extenuado e com fome, começou a parar, de quando
em quando, para comer capim, virando a cabeça para alcançar
os tufos mais suculentos. Quando acontecia isso, minha avó esperava,
sem nenhuma pressa, o animal comer, para só depois reiniciar a
aragem. Isso irritou meu avô, que protestou contra as interrupções.
Minha avó respondeu que não tinha coragem de impedir o animal
de saciar a fome.
Se o marido quisesse fazer isso, que tomasse a dianteira. Foi quando trocaram
de lugar. Araram mais um pouco a terra, e logo o cavalo avistou outro
tufo de capim; fixou os olhos no alvo, e rumou em direção
ao alimento, desviando-se totalmente da linha imaginaria de aragem. Meu
avô ainda tentou impedí-lo, puxando-o pelo cabresto, mas
não teve a mínima chance contra a obstinação
do animal. O cavalo, arrastando-o junto, chegou até o tufo, e pôs-se
a comer. Ao ver o arado tombado, que deixara atras de si, como se fosse
um rabo, um sulco torto e inesperado no solo, meu avô foi invadido
por um imenso e inexplicável rancor, que imediatamente se converteu
em ódio. Foi quando estourou: o cavalo sentiu entrar nos focinhos
o solado duro da bota de campanha que meu avô calçava. Ao
receber aquela pancada fortíssima, o animal, sem emitir nenhum
som, volveu-se um pouco para trás, e levantou a cabeça o
máximo que pode, como se pedisse clemência aos céus.
E assim permaneceu, imóvel, com a cabeça levantada e os
olhos ensopados de lágrimas. Meu avô ainda tentou empurrá-lo,
mas o animal parecia uma estátua em sua imobilidade. Retesado de
dor, tornava-se um monumento vivo, casual e fugaz, a estupidez humana.
Frente aquela inesperada atitude, meu avô quedou-se perplexo, e
ficou por um instante hipnotizado pela impressionante silhueta que se
recortava, brilhante em seus contornos, contra o horizonte ensolarado.
Quando o cavalo abaixou, lenta e dolorosamente, a cabeça, jorrou
de suas narinas um sangue farto, que escureceu ainda mais uma terra já
rubra por natureza. Ao ver aqueles focinhos estourados, meu avô
teve consciência do que tinha feito, e finalmente entendeu que seu
descontrole não tinha, a rigor, nada a ver com a atitude instintiva
de um cavalo faminto; sua raiva era do mundo.
Em questão de segundos, rememorou todas as humilhações
e privações por que tinha passado; então, descortinou-se
para ele o entendimento de que sua fúria era filha de uma vida
inteira afogada em infelicidade. Ao compreender, finalmente, de que mal
sofria, desatou a chorar. Chorou um choro carregado de remorso, um choro
profundo que foi molhando suas antigas réstias de resignação.
Minha avó lembra como se fosse hoje: aquele homem desorientado,
minado em suas forças, abraçado ao pescoço do cavalo.
Ficou observando a cena a distância, não ousando interferir
no que talvez fosse o primeiro contato de meu avô com sua própria
humanidade: momento privilegiado de compreender e superar um sentimento
de impotência para com a vida. Após um tempo, meu avô
tirou a camisa molhada de suor e limpou delicadamente o focinho machucado.
Depois, acariciou a fronte do animal, e afastou-se.
Neste dia, não trabalharam mais. Voltaram para casa em silêncio,
e assim meu avô permaneceu uma semana inteira, curtindo, num completo
mutismo, a dolorosa lembrança daqueles dois grandes olhos mareados
a lhe pedir piedade. Foram noites e dias inteiros povoados por olhos negros,
lágrimas, sangue e tufos de capim. Na semana seguinte, quando voltou
a falar, minha avó espantou-se. A voz que ouvia parecia vir de
outro homem. Meu avô transformara-se. Logo, o estranhamento que
tomou conta dela estendeu-se também as pessoas que o conheciam.
Um homem que tanto apreciava a caça, agora, desfazia-se dos rifles.
Um siciliano que se orgulhava de pertencer a uma raça de fortes
que não sabia o que era voltar para casa carregando desaforos,
agora compreendia e perdoava os desafetos. As rinhas noturnas a céu
aberto, onde furiosos galos índios sangravam ao luar, perdeu, de
uma hora para outra, seu mais contumaz freqüentador. Todos viam,
também, que agora meu avô andava desarmado, livre do pesado
Colt 44. Assim, todos que conheciam aquele italiano, outrora de sangue
quente, foram se acostumando com aquela voz mansa, que pronunciava, as
vezes com excessiva freqüência, a palavra "paz".
Minha avó me assegura que o homem doce, compreensivo e justo que
conheci só passou a existir graças a esse incidente no campo,
quando algo misterioso e definitivo ocorreu em seu interior, levando-o
definitivamente para a senda da concordia. Até sua morte, alguns
anos atrás, ele soube manter domesticado o gênio violento.
E o que me marcou nessa história foi a conversão psíquica
de um homem que se tornou pessoa sem precisar encontrar o dalai-lama,
sem precisar ler literatura esotérica, e sem ter de clamar, como
um desesperado, pelo poder do sangue de Jesus. Na mudança radical
de meu avô também não houve drogas nem álcool,
e muito menos alucinógenos sagrados. Sua serenidade - que muitos
anos depois tanto me impressionaria - veio ao acaso: dádiva de
uma situação pagã, celebrada no sangue estranhamente
purificador de um cavalo." |